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Voltar 19/08/2011 - Noticenter

Industria

RELAÇÕES DE PARCERIA NAS CADEIAS DE SUPRIMENTOS DAS EMPRESAS DO SETOR METAL-MECÂNICO DO VALE DO ITAJAÍ

André Luís Almeida Bastos1

Resumo

O setor metal-mecânico é um dos setores de atividade industrial mais competitivos de SC. É relevante observar se as práticas de relacionamento destas empresas com seus fornecedores convergem para o atendimento dos níveis de exigências requeridos pelo mercado. Entrevistou-se um grupo de 22 empresas, de um total de 53 do universo, segundo a classificação da FIESC. Observou-se que as práticas de relacionamento que caracterizam a parceria entre clientes e fornecedores de primeiro nível incidem, efetivamente, sobre um número muito pequeno de empresas, especialmente por ser este um setor de atividade industrial que tem sido alvo de grandes investimentos em busca de respostas aos elevados níveis de exigências do mercado.

1. Introdução

A maior parte das indústrias locais de grande e médio porte do setor metal-mecânico faz parte da cadeia de suprimentos do setor automotivo e, em decorrência do elevado nível de exigência relacionado ao padrão de fornecimento imposto pelas grandes empresas deste setor, em termos de qualidade e custos de seus produtos, muitos investimentos tem sido realizados pelas indústrias locais, ocasionando entre outros fatores, um aumento da capacitação da mão-de-obra com investimentos em treinamentos, uma intensa modificação de seus processos produtivos, tendo em vista às adequações exigidas por grandes clientes do setor automotivo. Deseja-se, entretanto, identificar como as relações com seus fornecedores imediatos tem se desenvolvido, de tal forma que estas empresas possam responder a estes novos e crescentes níveis de exigências impostos pelo mercado.

Dessa forma, o objetivo deste artigo consiste em identificar se as práticas das relações entre clientes e fornecedores do setor metal-mecânico no Vale do Itajaí convergem para as demandas de elevado nível de exigências de desempenho requerido pelo mercado e se tais práticas são baseadas em relações de parcerias entre cliente-fornecedor e se as mesmas buscam sustentar um melhor desempenho da cadeia, como um todo.

2. As novas relações nas cadeias de suprimentos (CS)

O fenômeno da horizontalização das atividades industriais, como decorrência de uma crescente necessidade de foco no Core Competence das organizações, traz como conseqüência uma mudança significativa na configuração da competitividade no mercado, onde cada vez mais a competição se estabelece entre cadeias de fornecimento integradas e não mais entre empresas individuais.

Estudiosos da Logística e Cadeia de Suprimentos ressaltam a necessidade dos clientes e fornecedores adotarem estratégias voltadas para a formação de parcerias de longo prazo, integração de processos e cooperação para que ambos possam se beneficiar mutuamente. Aliás, o próprio conceito de Cadeia de Suprimentos já pressupõe a integração entre fornecedores e clientes.

3. Parcerias com fornecedores

A prática de adotar parcerias vem sendo utilizada por várias organizações como uma alternativa para aumentar a sua vantagem competitiva. Estas relações podem ocorrer de diversas formas e recebem diversas denominações (associações, alianças estratégicas, parcerias, empresas consorciadas, entre outros), entretanto, todas as formas referem-se aos mesmos objetivos: aumentar a competitividade do bloco e incrementar a eficiência operacional (os quais não seriam possíveis de se obter individualmente). A integração propicia um ambiente em que ambos buscam alcançar melhores resultados, em termos de qualidade, custo dos produtos e serviços. Neste tipo de relacionamento, é comum uma redução da base de fornecedores, o desenvolvimento de produtos com participação de fornecedores e clientes, como forma de aumentar a produtividade e reduzir o tempo de entrega dos projetos.

A prática da utilização de contratos de longo prazo, por exemplo, tem sido utilizada como uma das formas de buscar redução de custos, tendo em vista a manutenção de garantias de volumes de itens a serem produzidos e entregues num horizonte de tempo de longo prazo. Estes contratos, além da garantia dos relacionamentos de longo prazo, estabelecem direitos e obrigações das partes, para gerar estabilidade e resguardar a confiança dos parceiros.

Em suma, deseja-se a partir da relaçao de parceria reduzir o preço do item comprado, obter uma melhor qualidade do item comprado, obter maior pontualidade de entrega do item comprado, aumentar a flexibilidade (diversidade e volumes) para o item comprado, obter poder de barganha junto ao fornecedores, obter um prazo maior para pagamento/aumento do capital de giro fornecedores, reduzir estoques internos, adquirir serviços/produtos qualificados/especializados, características inerentes a relações mais próximas entre os atores.

4. Resultados

A seguir, apresenta-se uma discussão dos resultados, conforme os objetivos descritos na introdução. Os responsáveis pelas respostas são líderes responsáveis pelas funções de Compras ou Qualidade nas empresas pesquisadas.

4.1 Relações de parceria entre clientes e fornecedores

Inicialmente, buscou-se identificar como as empresas caracterizam suas relações com seus fornecedores imediatos, no que tange ao aspecto da parceria.

Uma questão fechada foi formulada de tal forma a identificar se tal empresa mantem, ao menos, com um fornecedor uma relacão de parceria, nas seguintes modalidades: aquisição de materiais (matéria-prima e insumos), serviços de fabricação (transformação de materiais) ou ainda em atividades não relacionadas às atividades principais como serviços de apoio (limpeza, manutenção, vigilância). Para esta questão, foi permitido que o respondente assinalasse mais de uma alternativa. Os resultados ilustrados na tabela 1.

TABELA 1 – Relações de parceria entre clientes e fornecedores.

Opções

Resultados

Incidência

(%)

Sim, para produtos

14

64%

Sim, para serviços focados na fabricação de seus produtos

7

32%

Sim, para serviços de apoio

3

14%

Não possui

3

14%

Os dados mostraram que para o grupo de 22 empresas pesquisadas, 19 delas entendem possuir uma relação de parceria com, pelo menos, 1 de seus fornecedores, em qualquer uma das modalidades assinaladas (produtos, serviços de manufatura ou serviços de apoio).

4.2 Benefícios esperados com a parceria com fornecedores

A segunda questão buscou identificar, os principais benefícios esperados que movem as empresas a desenvolver as parcerias com seus fornecedores. Nesta questão, os respondentes poderiam assinalar mais de uma alternativa. Os resultados são ilustrados na tabela 2.

TABELA 2 – Benefícios esperados com a parceria com fornecedores.

Opções

Resultados

Incidência

(%)

Obter uma melhor qualidade do item recebido

17

77%

Reduzir o preço de compra do item

14

64%

Obter maior pontualidade de entrega do item recebido

13

59%

Reduzir estoques internos

12

55%

Necessidade de obter serviços qualificados/especializados

8

36%

Obter um maior volume do item comprado com único fornecedor

6

27%

Aumentar a flexibilidade no item a ser recebido

5

23%

Obtenção de um prazo maior para pagamento

4

18%

Aumentar o poder de barganha junto ao fornecedor

4

18%

Desenvolver fornecedores para atingir o desempenho classe mundial

1

5%

Obter benefícios com o desenvolvimento dos processos de fabricação do fornecedor

1

5%

Outros

0

0%

Entre as 22 empresas do grupo de respondentes, apenas 19 responderam a esta questão, haja vista que 3 empresas do grupo assinalaram não possuir parcerias com seus fornecedores.

Com base nos três critérios mais utilizados pelas empresas do grupo pesquisado, podemos confirmar a tendência enunciada por diversos estudiosos, a qual descreve que as empresas valorizam a qualidade e a pontualidade de entrega, e não apenas o custo nas relações com seus fornecedores.

Em outro extremo de incidências, apenas 1 empresa do grupo assinalou que seu objetivo ao estabelecer parcerias com seus fornecedores é pautado no desenvolvimento de fornecedores como estratégia para alcançar desempenho de classe mundial, bem como obter beneficios com o desenvolvimento dos processos de fabricaçção do fornecedor. O fato de apenas 1 empresa do grupo assinalar estas duas últimas opções é preocupante, tendo em vista o fato do grupo de empresas ser classificado como de médio de médio e grande portes, atuar em um mercado global e altamente competitivo.

Em síntese, esta questão retrata o fato de que as empresas têm a consciência que programas de parceria com seus fornecedores podem levar a melhorias na qualidade, preço, pontualidade e redução de estoque. Entretanto, é possível apontar também uma insignificante preocupação com a colaboração na relação cliente-fornecedor, que pode ser concluída pela baixa incidência de iniciativas de desenvolvimento e melhoria de processos de fabricação de seus fornecedores, como resultado de um maior estreitamento nas relações entre os atores da cadeia de suprimentos.

4.3 Práticas de relacionamento com os fornecedores

A tabela 3 ilustra as principais práticas de relacionamento com fornecedores.

TABELA 3 – Práticas de relacionamento com fornecedores.

Práticas de relacionamento com fornecedores

Resultados

Incidência

(%)

Compartilhamento de informações via e-mail/ telefone

21

95%

Desenvolvimento conjunto de novos produtos (cliente/ fornecedor)

13

86%

Produção puxada, "pedido" realizado via kanban

10

45%

Just in time (entrega no prazo, nas quantidades e no local correto)

9

41%

Estímulo aos fornecedores para praticar uma ou mais ferramenta lean

8

36%

Ausência de inspeção no recebimento do produto

8

36%

Programa de qualificação de fornecedores através de treinamentos

7

32%

Logística integrada

7

32%

Treinamentos/ Compartilhamento de conhecimentos necessários à melhoria da performance dos fornecedores

6

27%

Gerenciamento visual entre clientes e fornecedores

5

23%

Contratos de longo prazo, assegurando volumes a longo prazo

5

23%

Compartilhamentp de informações via sistemas/ softwares integrados

5

23%

Investimento conjunto (cliente/ fornecedor)

3

14%

Cooperação nos projetos de novas tecnologias

3

14%

Outras

0

0%

Aproximadamente metade do grupo de empresas pesquisadas, 13 num total de 22 empresas,  afirmam praticar o desenvolvimento de novos produtos em conjunto com seus fornecedores, evidenciando uma prática de maior avanço para caracterizar sistemas de parcerias. Segundo os estudiosos da área, esta prática tem sido utilizada pelas empresas em maior estágio de colaboração com seus fornecedores e que buscam, nesta coorperação, aumentar a produtividade, reduzir de tempos de entrega de projeto, além de possível diminuição de atrasos e incorporação de tecnologias. Apesar disso, apenas metade das empresas do grupo pesquisado buscam desfrutar das vantagens de desenvolver os seus produtos em parceria com seus fornecedores.

As práticas de entregas Just in time foram assinaladas por 9 empresas do grupo de empresas que utilizam esta prática com seus fornecedores, buscando beneficiarem-se de entregas na quantidade certa, no prazo e na quantidade correta.

Observou-se ainda que apenas 7 empresas do grupo pesquisado não realizam inspeção no recebimento dos produtos comprados, sendo um grande número de empresas que ainda praticam inspeções dos produtos recebidos. Dessa forma, um pequeno número de empresas do grupo pesquisado tem buscado, por meio do desenvolvimento de um relacionamento de confiança com seus fornecedores, a eliminação de tempos improdutivos de produtos no recebimento, os quais invariavelmente, contribuem para o aumento do lead time de fabricação e, consequentemente dificultam um maior nível de competitividade no mercado em que atuam.

O estímulo para que os fornecedores pratiquem uma ou mais ferramentas lean em sua organização é realizada por 8 empresas do grupo de empresas e apenas 7 empresas têm logística integrada, comprovando que a minoria do grupo de empresas está utilizando ferramentas da manufatura enxuta para o desenvolvimento da cadeia de suprimentos. Contratos de longo prazo para minimizar custos e garantir volumes são praticados por apenas 5 empresas do grupo pesquisado.

5. Considerações Finais

O setor metal-mecânico no Vale do Itajaí, tido como uma das atividades industriais mais competitivas em SC, foi alvo de uma pesquisa que buscou identificar como um grupo de 22 empresas, de um universo de 53 empresas informadas pela FIESC, relaciona-se com seus fornecedores de primeiro nível.

Buscou-se identificar quais as práticas de relacionamento mais recorrentes, bem como a existência das características de relacionamentos de parcerias nas relações da cadeia de suprimentos. As análises apresentadas restringem-se ao grupo de 22 empresas respondentes.

Constatou-se que poucas destas empresas desenvolvem com seus fornecedores práticas relacionadas à obtençao de práticas mais avançadas para obtenção de mehores desempenhos em relação às exigências dos grandes clientes, haja vista que, por exemplo, a prática de desenvolvimento conjunto de novos produtos com o fornecedor, a qual contribui para a minimização de custos e para a minimização de lead time de desenvolvimento, tem a incidência de apenas 13 empresas do grupo. A prática da ferramenta produção puxada, a qual contribui para minimização de lead time de fabricação e, consequentemente, redução de prazos de entrega, tem incidência em apenas 10 empresas do grupo. A entrega just in time, prática que pode ser relacionada à qualidade total na entrega, fundamentada na qualidade dos itens entregues, na quantidade correta e no prazo correto é praticada por apenas 9 empresas. O estímulo para que as empresas utilizem ferramentas lean tem incidência em apenas 8 empresas, a qualificação de fornecedores (8 empresas), a logística integrada (8 empresas). Além disso, um outro conjunto de ferramentas e práticas que poderiam potencializar o desempenho do fornecedores nos critérios pontualidade, qualidade e preço, tem baixa incidência na pesquisa. Dessa forma, observa-se que o nível de relacionamento entre os “parceiros” ainda restringe-se à busca de obter resultados satisfatórios nestos critérios qualidade do produto fornecido, preço do produto e prazo de entrega, no entanto, envolver um relacionamento mais integrado que tais práticas possibilitam.

Apesar do elevado percentual 86,4% das empresas do grupo afirmarem ter parcerias com seus fornecedores, as quais justificam esta iniciativa com o objetivo de melhorar a qualidade do item comprado, reduzir o preço e aumentar a pontualidade da entrega. Constatou-se, entretanto, que poucas destas empresas tem potencial para desfrutar dos benefícios decorrentes de relações mais estreitas entre os atores da cadeia, tais como: relações de longo prazo, desenvolvimento conjunto de projetos, investimentos conjuntos.

De forma ampla, para o grupo de empresas, conclui-se que as atuais práticas de relacionamento com os fornecedores podem ser potencializadas para sustentar maiores níveis de exigências requeridos pelo mercado, haja vista o baixo nível de estreitamento de relacões observados nos dados coletados pela pesquisa.


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