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Voltar 11/05/2018 - Estado de Minas

AGRONEGÓCIO

Lino Rodrigues

Fabricantes apostam no agronegócio e no mercado externo.

São Paulo – Nos últimos três anos, os fabricantes de máquinas e equipamentos rodoviários, a chamada linha amarela utilizada em construções e obras de infraestrutura, viram suas vendas despencarem de 26,7 mil unidades em 2014 para 8 mil no ano passado. A crise que se instalou no setor logo após operação Lava-Jato e abateu boa parte das grandes construtoras no país acabou reduzindo drasticamente o mercado a praticamente um quarto do que era.

“Foi uma espécie de avalanche que soterrou boa parte dos negócios das empresas que, até a Copa do Mundo no Brasil, viviam um bom momento”, afirma Alexandre Bernardes, presidente da Câmara Setorial de Máquinas Rodoviárias da Abimaq, associação que reúne as maiores empresas do setor. A “avalanche” também atingiu a parte mais fraca da cadeia, os fornecedores. Muitos deles tiveram que fechar as portas. Os que sobreviveram precisaram demitir funcionários. “A maioria dos fabricantes da linha amarela é multinacional e conseguiu se segurar com a crise, mas os fornecedores, especialmente os pequenos, não”, conta o presidente-executivo da Abimaq, José Veloso.

Com as vendas praticamente paralisadas para as construtoras, muitas em recuperação judicial, a saída foi procurar o mercado externo e oferecer máquinas adaptadas ao agronegócio brasileiro, único setor que não sentiu a crise e que poderia ser uma alternativa de negócio. Como boa parte das empresas possui operações em vários países, a opção pela exportação acabou dando certo. Em 2015, foram vendidas para o mercado internacional 5,8 unidades, 2 mil a menos que no ano anterior. Mas, em 2016, os esforços começaram a render frutos, com 7,7 mil unidades comercializadas. No ano passado, os resultados confirmaram que a escolha pelo mercado externo foi correta, com a venda de 12 mil máquinas fora do país, volume muito perto de toda produção no ano, que foi de 15,9 mil unidades.

Na outra ponta, os produtores agrícolas, capitalizados pelos ótimos resultados das últimas safras, passaram a comprar maquinário amarelo para utilizar dentro das suas fazendas, como retroescavadeiras, tratores com esteiras e outras máquinas para ajudar na produção e na armazenagem da safra. “As empresas só conseguiram sobreviver por conta das exportações e do setor agrícola, que bombou nesse período de crise”, atesta Veloso, lembrando que o aumento das exportações também foi um alento para os fornecedores que conseguiram sobreviver, apesar da queda brutal no faturamento que, em alguns casos, chegou a 60%.

Dados da Abimaq mostram que o segmento de máquinas rodoviárias registrou crescimento de mais de 40% entre 2016 e 2017 nas exportações, impulsionando assim o resultado global da entidade. No primeiro trimestre deste ano, 36% das exportações de bens de capital do Brasil saíram da área de máquinas rodoviárias. E mais: atualmente, mais da metade do faturamento das empresas têm origem nas exportações. “Melhorou muito, mas ainda há uma crise”, alerta o executivo da Abimaq, lembrando que o Brasil está consumindo hoje a metade do número de máquinas negociadas em 2012. 

A americana Caterpillar, tradicional fabricante da linha amarela com mais de 60 anos de Brasil, fez um esforço enorme para compensar a queda das vendas no mercado interno. Com a paralisação dos grandes projetos de infraestrutura no país e ainda tendo que conviver com inadimplência em torno de 15%, a empresa precisou se reinventar para competir no mercado global. “Tivemos que fazer o dever de casa para atender o mercado externo e preparar nossas máquinas para o setor agrícola que não para de crescer”, diz Andrea Park, diretora de Assuntos Governamentais e Corporativos da empresa no Brasil.

Segundo a executiva, o agronegócio vem ganhando espaço nos negócios da empresa e já responde por 15% das vendas, participação que deve continuar crescendo enquanto os projetos de infraestrutura não são retomados no país. O produtor rural, diz ela, está buscando produtividade e as máquinas amarelas entram como suporte na produção agrícola e nas obras realizadas dentro das propriedades.

Apesar da crise, a empresa não parou de investir. Entre 2016 e 2017 foram cerca de US$ 70 milhões, recursos destinados às duas unidades brasileiras – em Piracicaba (SP) e Campo Largo (PR). Andrea afirma que está confiante na retomada das grandes obras de infraestrutura, tão necessárias para o Brasil continuar crescendo. “Temos uma boa expectativa para depois que passar essa fase eleitoral. O Brasil tem muita coisa para ser feita em termos de infraestrutura. Continuamos acreditando”, afirma Andrea.

Estratégia

A japonesa Komatsu é outra que está apostando na força do agronegócio brasileiro. Com equipamentos voltados para a terraplanagem, a empresa investiu pela primeira em um amplo estande na Agrishow, maior feira de tecnologia e máquinas voltadas para agricultura da América Latina, que aconteceu na primeira semana de maio, no interior de São Paulo. A estratégia foi de se aproximar mais dos produtores rurais, que já respondem por cerca de 15% dos negócios gerados pela empresa. A Komatsu também acredita que o mercado de construção deve começar a se recuperar. Enquanto isso não acontece, vai continuar focando no agronegócio.

Considerada uma das primeiras fabricantes de máquinas da linha amarela com utilização na agricultura, a inglesa JCB tem investindo em tecnologia para atender cada vez mais as necessidades do agronegócio brasileiro. Atualmente, as vendas para o setor agrícola já respondem por 29% do total, e a participação da empresa no mercado de máquinas agrícolas cresceu 10% no ano passado. A expectativa é chegar a 15% até o final de 2018.

No lado da exportação a empresa saiu de 20% de participação há três anos para 50% do faturamento brasileiro. “Nosso foco não era exportação. As vendas externas aconteciam mais para cobrir o que as unidades da Inglaterra e Índia não podiam atender”, diz Rafael Cardoso, diretor de relações internacionais da empresa, lembrando que o cenário econômico adverso fez com que as empresas do setor encontrassem alternativas para manterem suas operações no Brasil.

O mercado de máquinas agrícolas tem se mantido na média de R$ 13 bilhões de faturamento ao ano desde 2014, de acordo com números da Abimaq. Em 2017, as receitas totalizaram R$ 13,7 bilhões e a expectativa é crescer em torno de 8% neste ano. Segundo Pedro Bastos de Oliveira, presidente da Câmara Setorial de Máquinas e Implementos Agrícolas da associação, o que tem garantido a estabilidade nas vendas é a disponibilidade de recursos oferecidos aos agricultores em diversas linhas de financiamento. Em 2017, os produtores captaram R$ 12,8 bilhões para investimentos em maquinário agrícola.

A salvação que vem do campo

Atual motor da economia brasileira, com 24% de participação no PIB de 2017, o agronegócio tem sido a salvação de muitos setores que ainda estão sofrendo com a crise econômica. Assim como o setor de máquinas e equipamentos rodoviários está conseguindo parte das vendas perdidas no mercado interno, empresas de tecnologia também querem aproveitar o boom da agricultura para aumentar seus negócios.

A mais recente investida é do Grupo Positivo, que atua nas áreas de produção de computadores, tablets e celulares, que desenvolveu um drone gigante para pulverização agrícola. O projeto foi elaborado junto com a Eleva, que recebeu aporte da Positivo para conceber o produto em troca de 40% de seu capital.

Outra que está pegando carona no agronegócio é a OLX, portal de compra e venda online, que criou uma plataforma para a venda de máquinas pesadas. Nos primeiros quatro meses do ano, foram comercializadas 6.847 máquinas agrícolas, industriais e para construção, sendo mais de 1.500 tratores (cerca de 17 por dia). “As tecnologias digitais estão cada vez mais presentes no agronegócio e é preciso compreender essa mudança para se beneficiar com a nova realidade”, diz Bruno Valle, diretor de estratégia e planejamento da OLX Brasil.

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