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Voltar 29/03/2018 - Estado de Minas

MADE IN BRAZIL

Os historiadores consideram que a industrialização brasileira começa em 1808, quando dom João VI, ao chegar ao Brasil, revogou a proibição de D. Maria I que impedia a colônia de produzir manufaturas. Entretanto, a simultânea abertura dos portos fez com que a manufatura brasileira ficasse restrita a poucos bens de consumo e somente nas duas últimas décadas do século 19 o Brasil passou a apresentar alguns indicadores de industrialização.

Ainda assim, em 1900, quando comparamos os índices de produção industrial per capita, o Brasil mal chegava a 5% da produção da Inglaterra e 7% dos Estados Unidos, e somente com Vargas e a Segunda Guerra Mundial o Brasil começou a implantar uma política de industrialização com indústrias de base e de energia. Ou seja, a industrialização brasileira iniciou-se quase 200 anos após a Inglaterra e 150 anos depois dos Estados Unidos.

Nossa revolução industrial aproveitou muito bem a criação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e os estímulos dados à substituição das importações, desde Juscelino até os governos militares (1964-1985). Nesse período, nasceram os incentivos às exportações, que ajudaram a consolidar nossa indústria, de modo que, no fim da década de 1970, o Brasil figurava em quinto lugar entre as principais potências industriais, fazendo os brasileiros se orgulharem do made in Brazil.
Na década perdida dos anos 1980, o Brasil perdeu bem mais do que sua taxa de crescimento. O país esqueceu que o motor do crescimento chinês, de 1930 a 1980, foi, basicamente, o processo de industrialização. Foi a indústria que, ao crescer e criar empregos, possibilitou fortes ganhos de produtividade, permitindo a absorção dos migrantes do campo e do Nordeste e transformando desempregados em brasileiros com carteira assinada e renda decente.

A substituição das importações, porém, tinha como limite natural o atendimento ao mercado interno, alcançado na década de 1970, o que comprometia a continuidade do crescimento da indústria. Na ocasião, o sucesso dos países emergentes asiáticos, que escolheram “crescer via exportações”, indicava qual o caminho do Brasil. Isso exigia fortes investimentos em educação para fornecer pessoal qualificado, bem como câmbio depreciado, baixa carga tributária e crédito abundante, para investimentos produtivos, a juros compatíveis.

Entretanto, em meados dos anos 1980, o processo de redemocratização mudou as prioridades definidas pelo regime militar, substituindo-as pelo atendimento prioritário dos anseios sociais, fato sacramentado na Constituição Cidadã. Simultaneamente, o Brasil passava a conviver com forte crescimento da dívida pública e inflação elevada, o que tornava o Estado brasileiro refém do setor financeiro, levando o mercado a definir as novas prioridades nacionais, das quais a indústria não fazia parte.

Assim, em lugar da inserção competitiva da indústria nacional nas cadeias globais, foi feita uma abertura financeira ampla, geral e irrestrita. A adoção das políticas do Consenso de Washington, feita por FHC e continuada por Lula, ampliou o processo de desindustrialização iniciado nos anos 1980. Juros altos e câmbio baixo, decorrentes do tripé instituído na crise cambial de 1999, levaram a indústria de transformação brasileira a reduzir sua participação no PIB dos quase 30% de 1980 para cerca 11% em 2016.
As tentativas canhestras, feitas no governo Dilma, de compensar os estragos no tecido industrial do país, causados por anos de juros altos e câmbio apreciado, através de incentivos creditícios e/ou desonerações fiscais pontuais, demonstraram que esses últimos não substituem uma política macroeconômica favorável ao investimento produtivo. Isso não impediu, entretanto, que economistas ortodoxos usassem o fato para pontificar sobre a inutilidade de todas e quaisquer políticas industriais.

Essas desonerações pioraram sensivelmente as contas públicas, levando o país a um endividamento crescente e à crise política. Já em 2015, com o ministro da Fazenda imposto pelo mercado e, principalmente, após a troca de governo, a visão financeira no diagnóstico da crise priorizou um ajuste fiscal que desconheceu o elevado endividamento das famílias e das empresas, piorando sensivelmente a grave recessão. Caberá ao futuro presidente, além de equilibrar as contas públicas, definir um novo modelo de desenvolvimento que resgate o papel da indústria.

O ciclo de crescimento sustentado dos anos 1930 a 1980 do século passado não por acaso ocorreu junto com a industrialização do país, enquanto a forte redução nas taxas de crescimento do PIB, simultânea com a desindustrialização, não é mera coincidência. Se é verdade que o crescimento decorre basicamente de ganhos de produtividade, fato com o qual concordam 11 entre 10 economistas, o novo governo deve perseguir esse objetivo. E é indiscutível que, no mundo todo, esse papel tem sido desempenhado, basicamente, pela indústria e pelos serviços sofisticados que ela demanda.

Jamais seremos um país desenvolvido sem produzir produtos tecnologicamente complexos e empregar mais e mais brasileiros na indústria de transformação e em serviços sofisticados. Assim, reindustrializar o país, tendo em vista o novo paradigma de uso intensivo de tecnologia digital, internet das coisas e inteligência artificial, é indispensável para o crescimento sustentado. Um ambiente favorável aos investimentos é necessário, mas as reformas microeconômicas, entre as quais se destaca a tributária, são essenciais para que a produção e exportação de bens e serviços made in Brazil sejam um bom negócio.

Não foi por falta de políticas industriais que a indústria brasileira não cresceu no passado recente, mas, ao contrário, encolheu até ocupar, hoje, o 11º lugar entre os países industrializados. De fato, nenhuma política de incentivos ou de desonerações compensa uma política macroeconômica hostil. Juros altos desestimulam os investimentos e aumentam custos, enquanto o câmbio apreciado define o preço e, portanto, as margens de bens e serviços. Ou seja, um ambiente desfavorável aumenta custos e reduz margens, o que certamente não faz do país um bom lugar para se produzir.

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